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CULT - A LITERATURA GAY
Está nas bancas a edição nº. 60 da revista CULT, este número tendo como carro-chefe a literatura gay.
Logo na abertura do “dossiê”, Gilmar de Carvalho (UFCE e PUC-SP) já orienta sobre o que nos aguarda nas páginas seguintes:
“O debate sobre a existência de uma escritura homoerótica essencialmente distinta das demais formas de manifestação literária é um tema polêmico, que envolve questões teóricas, preconceitos sociais e interesses mercadológicos”.
O epíteto de Oscar Wilde, “o amor que não ousa dizer seu nome”, não encontra ressonância no que, com toda certeza, podemos cunhar como literatura homoerótica brasileira, esta a abordagem principal do “dossiê”.
E ali desfilam, com galhardia literária, Adolfo Caminha e seu marco naturalista, Bom Crioulo; Lúcio Cardoso (Crônica da casa assassinada); João Silvério Trevisan com seus maravilhosos Em nome do desejo e Devassos no Paraíso; Caio Fernando Abreu (Morangos mofados); Silvano Santiago (Stela Manhattan), e o jovem Denilson Lopes com seu bem “ilustrado” O homem que amava rapazes (este, em declaração à revista, presenteia-nos com uma pérola: “O grande desafio dos militantes e estudiosos é o de colocar a questão da homossexualidade como algo que diga respeito não só a um grupo específico, mas ao conjunto da sociedade. O desafio é como aprender com o que somos, mas também com o
que não somos”.
A lista dos escritores citados é infindável.
Todos ousaram (e ousam) dizer seus nomes, em nome deste louco amor.
Oportuna é a citação/resgate de Guimarães Rosa, Grande Sertão Veredas: “O amor de Riobaldo por Diadorim perpassa todo o livro. Trata-se de um épico que ultrapassa os limiares da linguagem nos bandos de jagunços e avança na perspectiva de um sertão ‘dentro da gente’. Mas tudo isto é pano de fundo para a paixão entre dois homens”.
Trocando em miúdos, a revista está imperdível. E, como cereja neste doce manjar de letras iridescentes, ainda nos regala uma magnífica matéria sobre o cinema gay, onde está (e nem poderia ser diferente), aplaudido, nosso divino Madame Satã.
Ícones à parte, algo ficou faltando: as páginas dos anônimos, contos e poemas destes que “ainda” não granjearam o status literário, o pódium “canônico” das editoras.
Felizmente podemos encontrá-los em heróicas edições individuais, ou publicados em “cordéis” na Internet. Ressalte-se aqui o inequívoco bom gosto e inteligente seleção que nos brinda o site www.estoufelizassim.com.br, coordenado pelo
nosso incansável Theo. E este “nosso” quer dizer Belo Horizonte.
Foucault, Woolf, Sartre e Genet bem podem estar renascendo por aqui, penas alterosas, graças a iniciativas como esta.

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