Que vontade de encher essa cara de bolacha
por Suzy Capó
3/9/2003
Este ano a comunicação visual do Festival Mix Brasil 11 será criada a partir de imagens do público. Ou seja, todas as peças gráficas (catálogos, posters, postais, banners) e o filme que abre todas as sessões do evento trarão retratos de pessoas que frequentam e/ou simpatizam com o Festival. O conceito da campanha é "a unidade faz diferença" e as fotos devem ser enviadas espontaneamente pelo próprio público, incentivado pela campanha "Mix Brasil: o festival que tem a sua cara". A campanha foi lançada pela Internet há alguns dias e há um fotógrafo circulando pelo Espaço Unibanco de Cinema e Museu da Imagem e do Som, em São Paulo, onde estão sendo realizadas as sessões do Mix Brasil dentro do 14o Festival de Curtas Metragens de São Paulo.
Quando propuseram a campanha, Eder de Oliveira e Pedro Paulo de Souza, da Curau Design, nos apresentaram estudos para que visualizássemos a cara que teriam essas peças, ou seja a cara que teria o Festival. De acordo com esses estudos, nosso público seria jovem e com uma quantidade equilibrada de mulheres e homens. Mas a julgar pelas imagens que já temos, as mulheres formam menos de um terço de nosso público - uma pena, já que a programação do Festival deve refletir essa proporção, privilegiando filmes e vídeos com temática gay, a despeito da grande quantidade de trabalhos produzidos por lésbicas, especialmente nos Estados Unidos e no Canadá.
A dificuldade de conquistar o público feminino não é uma novidade pra gente. Na primeira edição do Festival, em 1993, tínhamos a impressão que atingiríamos todo tipo de público, tamanha a receptividade alcançada pelos trabalhos exibidos no MIS. Tanto que criamos no ano seguinte a sigla GLS, justamente para descrever nosso público formado por gays, lésbicas e simpatizantes. Ao longo dos anos, no entanto, as lésbicas foram se afastando. Hoje é bem possível que a proporção de frequentadoras heterossexuais e homossexuais seja a mesma.
É claro que sempre nos perguntamos "onde foi que erramos". Durante os anos em que a equipe do Festival era basicamente masculina, a programação voltada para lésbicas talvez tenha sido um pouco negligenciada. Mesmo assim, a presença de trabalhos sobre a temática lésbica sempre foi mais expressiva que esse público. Bolachas foram protagonistas de pelo menos dois filmes de abertura do festival e desde a quarta ou quinta edição do festival foram criados programas de curtas lésbicos, o que supostamente deixaria as meninas mais à vontade.
Apesar do empenho em trazer para o Brasil filmes e vídeos com temática lésbica, o público não correspondeu na mesma proporção. E à medida que as filas de rapazes na porta do cinema cresciam, diminuiam nas telas os beijos entre mulheres. O Festival passou a ter uma cara mais gay, na perspectiva do público e da própria equipe do Festival.
Em 2002, numa tentativa de resgatar nosso público feminino, foram programados vários longas de temática lésbica. Eram filmes fortes, bem realizados, alguns destacavam-se inclusive entre os longas-metragens exibidos no Festival, tais como "O Poder da Sedução", de Laura Nix, e "Inocência Perdida", de Lawrence Ah Mon. Havia até um pornô feito por lésbica e para lésbicas, "Sugar High Glitter City", e um documentário sobre "mullets", corte de cabelo que faz muito sucesso entre as bolachas.
O retorno foi decepcionante. A impressão era de que a população bolacha de São Paulo nem sabia que havia um Festival de cinema sendo realizado. E das minhas amigas ouvi muita desculpa esfarrapada do tipo "mas nesse horário é impossível', embora todos os filmes tenham sido exibidos mais de uma vez e em pelo menos um "horário nobre". Como os rapazes não estão nenhum pouco interessados em assistir produções lésbicas, ótimos filmes passaram desapercebidos no Brasil, perdendo a chance de encontrar distribuição e portanto alcançar um público bem mais amplo e diversificado.
Ao programar a seção do Mix Brasil no festival de Curtas-Metragens de São Paulo achei que teria a oportunidade de reverter a (baixa) expectativa em relação às bolachas entre os programadores do Festival. Afinal, este é praticamente o ano da visibilidade lésbica no Brasil e no mundo, com garotas trocando beijos de língua e juras de amor no palco, Internet e televisão. Além disso, a maioria dos filmes lésbicos selecionados abordavam questões relacionadas à homossexualidade na adolescência e, pelo que tenho visto nas ruas, nos clubes e nos bares, são as bolachas mais jovens que têm dado as caras.
Mas, novamente, a programação do Mix Brasil está passando desapercebida pelas bolachas paulistanas. Embora tenha recuperado com essa mostra os nossos simpatizantes (incluindo aí mulheres heterossexuais), as meninas não estão mostrando a cara, nem nas salas de cinema, nem nas fotos que vão dar a identidade visual à nossa 11a edição. É verdade que conseguimos uma adesão feminina bem superior ao que esperávamos, mas ainda não é suficiente para criar a imagem da diversidade sexual, a essência do Festival Mix Brasil. No rosto que ilustra nossa campanha, estão crescendo pêlos, os ossos são mais proeminentes, a pele é mais áspera. E juro que dá a maior vontade de encher essa cara de bolacha!
Ps: se você quiser dar sua cara, preencha a autorização de uso de imagem que está no site do festival (www.mixbrasil.org) e envie junto com sua foto para Associação Cultural MixBrasil. Rua Luminárias, 114. Sumarezinho. CEP 005439-000
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