nem sei se já postei isto.....dane-se
...gostei...
Ode a Charles Fourier (André Breton)
Naquele tempo eu só te conhecia de vista
Nem mesmo sei como estás vestido
No gênero neutro sem dúvida não podias estar melhor
Nunca seria demais cumprimentar os edis
por te terem feito surgir à proa dos bulevares exteriores
Eis a tua praça que nas horas de ressaca
Quando a cidade se levanta
E pouco a pouco a fúria do mar ganha estas encostas puramente
espirituais
Cuja vide mais alta sustenta as estrelas
Ou mais freqüente quando se organiza a grande batida noturna
do desejo
Numa floresta cujos pássaros todos são de chamas
E também cada vez que uma rajada pior descobre na quilha
Uma ferida espantosa como um leilão de sereias no mercado
Eu não pensava que estavas ali em teu posto
E eis que numa dessas manhãzinhas de 1937
Vejam só fazia cerca de cem anos de tua morte
Ao passar percebi a teus pés um buquê de violetas muito frescas
É raro alguém pôr flores nas estátuas em Paris
Não falo das canalhices destinadas a engabelar a
carneirada
E a mão que se perdeu em tua direção num rastro inconcluso também
desnorteia minha memória
Deve ter sido uma enluvada mão de mulher
Gostava de usá-la como quebra-luz para enxergar mais longe
Sem prestar muita atenção me dei conta de que nos dias que se seguiram o buquê se renovava
O orvalho e ele como uma coisa só
E quanto a ti nada te teria feito tirar os olhos do barro
diamantífero da praça Clichy

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