Grande mas legal...
Dia das namoradas
Inês Amorim - O Globo
Um carinho discreto, dar as mãos um bocadinho e, quem sabe, um beijo no rosto. Para meninas que namoram meninas, ficar junto em público não é fácil. Para evitar constrangimentos, muitas dizem que vão comemorar o Dia das Namoradas, na quinta-feira, discretamente. Mas gostariam que fosse diferente.
— É chato ter hora para beijar na boca ou fazer carinho em quem você gosta. Queria poder fazer coisas bobas, como namorar numa praça — diz Fernanda, uma vendedora de 21 anos.
Namorando Patrícia, de 20 anos, há três meses, Fernanda conta que elas gostam de ir juntas a cinemas, restaurantes etc. Como Clara e Rafaela, personagens de Aline Moraes e Paula Picarelli em “Mulheres apaixonadas”, as duas têm apoio dos amigos, mas enfrentaram problemas em casa. Fernanda passou por situações dignas da novela de Manoel Carlos. Sua mãe descobriu que ela era homossexual ao ler sua agenda. Fernanda tinha 15 anos.
— Ela me mandou para um psicólogo. Aí, ele disse: você está bem, quem precisa de análise é sua mãe. Uma vez ela chegou a me dizer o clássico “sua namorada ou eu” — lembra. — Hoje, minha mãe me respeita. Trata a Pati superbem e ela só não dorme lá em casa porque não quer.
E Patrícia não quer por um só motivo: respeito aos pais.
— Meus pais sabem que gosto de meninas, mas não aceitam. Prefiro não criar situações. Moro com eles. No início eles falavam que era doença. Hoje não se metem — diz ela.
Os pais da personagem de Paula Picarelli, Rafaela, em “Mulheres apaixonadas”, também não se metem. Ou porque não percebem ou porque preferem não perceber que a filha é homossexual. Paula conta que se preparou para uma reação negativa. Enganou-se:
— Elas estão sendo superbem recebidas. As pessoas me abordam na rua torcendo para elas ficarem juntas.
Paula conta que recebe cartas de meninas em dúvida sobre sua sexualidade. Ter esse tipo de dúvida ao se sentir atraído por uma pessoa do mesmo sexo é normal, dizem os especialistas. A produtora de moda Gabriela, de 23 anos, no entanto, conta que sempre encarou numa boa a atração por meninas.
— Meninas crescem tomando banho juntas, andam de mãos dadas, dormem na mesma cama, têm intimidade desde sempre. Despertar a curiosidade, o desejo pela amiga, é fácil. Para o menino é mais estranho, ele se culpa mais — acredita Gabriela, que é bissexual.
Gabriela é desencanada. Mas algumas meninas entram em crise ao perceber que estão a fim de outra garota. Com a médica Adriana, de 27 anos, foi assim.
— Você nasce gostando de meninas, mas rola um bloqueio. Eu me reprimia, tive vários namorados. Minha primeira vez com uma menina foi na faculdade. Depois disse para ela: “Não rola. Gosto de homem. Foi só uma experiência”. Só que no dia seguinte estava com ela de novo — lembra, rindo, Adriana, hoje feliz com sua homossexualidade.
Rafaela, de 21 anos, também demorou até se assumir:
— Somos criadas para estar ao lado de homens. Quando se percebe que é homossexual, é estranho. No início, nega o que sente. Mas aos 17 anos contei para minha família.
E qual foi a reação deles?
— Negação. Mas hoje minha mãe respeita minha vontade.
Adriana já se acostumou a só namorar de verdade em casa. Mas diz que não se incomoda:
— Em público, rola no máximo um beijo no rosto e um carinho discreto. Não é preciso chocar. Eu me preservo, ninguém tem nada a ver com minha vida sexual. Você acaba se assumindo só no meio.
Ser discreto em público é parte do comportamento de muitas meninas.
— Não me sinto bem com as pessoas olhando feio. Você se sente um E.T. Não quero me sentir diferente nem ser rotulada. Sou igual a todo mundo — diz Patrícia.
A irmã mais velha de Patrícia, Paula, de 22 anos, hoje também fica com meninas, mas criticou a caçula por ser homossexual.
— Ela me dizia coisas horríveis. Mas ano passado teve uma experiência homossexual e me pediu conselhos — conta Patrícia, acrescentando que a irmã também fica com homens. — Quando estou solteira também fico com meninos, mas é curtição. Não é minha preferência.
A pedido das entrevistadas, foram usados nomes fictícios. Wanuzi Thomaz de Souza, de 20 anos, no entanto, quis que seu nome real fosse publicado. Moradora de Realengo, na Zona Oeste, em 2000 ela disse à família e aos amigos que era homossexual. Hoje militante do grupo gay Atobá, ela conta que, quase um ano depois de terminar um relacionamento com um homem, se envolveu com uma menina, que passou a freqüentar sua casa. Um dia sua mãe perguntou se elas estavam juntas e Wanuzi confirmou:
— Ela ficou meio cabisbaixa, mas não fez escândalo. Hoje eu moro com a minha mãe, que é deficiente física, e minha namorada. Nós duas a ajudamos.
Wanuzi diz que a novela ajuda a conscientizar as pessoas. Ela acha que a homossexualidade masculina é mais aceita por ter sido debatida nos últimos anos:
— Há 20 anos, dois gays juntos causavam um escândalo. Hoje, é praticamente normal. Com debates, o mesmo pode acontecer com a gente.
Colaborou Bruno Porto

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