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HOMOSSEXUALIDADE
Além das Teias do Preconceito
Forjado por constantes mudanças sociais, o preconceito contra os homossexuais só começou a diminuir nas últimas décadas. Mesmo assim, ainda precisamos aprender a vê-los além da sua opção sexual.
Por Vera Lúcia Franco(*)
Muitas coisas no terreno da sexualidade permanecem ainda no plano da especulação ou são vistas de forma puramente dogmática. Uma delas é a homossexualidade, associada ao longo da história à doença, à perversão ou à criminalidade.
Em seu livro Homossexualidade – Uma História, Colin Spencer relata, através de extensos dados históricos, a maneira como a homofobia – o preconceito contra o homossexualismo – foi gradativamente cunhada por constantes mudanças sociais.
Na verdade, em todo mundo antigo, a bissexualidade era socialmente aceita e o homossexual considerado igual a qualquer outro ser humano. Pesquisas antropológicas nas ilhas da Nova Guiné e da Melanésia deixaram evidentes a prática de rituais de iniciação homossexual entre velhos e jovens, os quais também existiram na Grécia, em Roma e entre todos os povos que ocupavam o pedaço do mundo que ia do Atlântico ao Ganges.
Diante de interesses políticos, religiosos e econômicos, no entanto, a homossexualidade sofreu duros golpes ao longo dos séculos. Só por volta do século 14, porém, é que a bissexualidade foi descartada da consciência social e a natureza humana definitivamente dividida entre homo e heterossexual. A primeira condição deveria, a partir daí, ser reprimida e a segunda, publicamente estimulada.
No século 18, o homossexual era insultado e tratado como um pecador. Graças à impossibilidade de procriação, seu papel na emergente sociedade de consumo ficou prejudicado.
Somente na segunda metade do século 20 é que a sociedade passou a mostrar maior compreensão pelo homossexual. Seja como for, um panorama mundial mais ou menos atualizado sugere que o homossexualismo é ainda ilegal em 74 países, 53 dos quais são ex-comunistas, ex-colônias britânicas ou de cultura predominantemente islâmica. Em 56 países existem movimentos gays, mas só em 11 deles a população é favorável a direitos iguais para todos. Em apenas seis países o governo protege os homossexuais contra a discriminação.
Os grandes tecelões da extensa teia de preconceitos contra a homossexualidade, porém, não foram unicamente os conceitos políticos, religiosos, culturais e econômicos. Também a ciência contribuiu para o fortalecimento da homofobia, dando o rótulo de doença ao que antes, ao longo da história, fora considerado blasfêmia e crime.
No século 19, surgiu entre os médicos a teoria de que a homossexualidade nada mais era do que uma degeneração – idéia que, além das classes instruídas, rapidamente conquistou as igrejas católica e protestante. Entre os métodos de cura da “perversão” estavam a castração, a terapia de choque e a lobotomia. Nenhuma dessas técnicas, no entanto, teve o efeito pretendido.
Apesar de se colocar de forma ambígua em relação ao tema, Sigmund Freud trouxe importante contribuição para que esse quadro se transformasse. Segundo ele, a homossexualidade era fruto de um distúrbio no desenvolvimento psicológico do ser humano, não podendo ser tratada como uma degeneração. Para Freud, punir os homossexuais feria profundamente os direitos humanos.
De qualquer maneira, a psicanálise continuava mantendo a opinião de que a homossexualidade era patológica, sendo necessário curá-la para que a pessoa pudesse atingir a plenitude de seu ser.
No decorrer do século 20, porém, alguns fatos contribuíram para modificar tanto o pensamento quanto a prática clínica da psicologia nessa área. Em 1948, por exemplo, o Relatório Kinsey revelou dados surpreendentes sobre o comportamento sexual dos americanos, entre eles, descobriu-se que 37% da população masculina havia tido algum tipo de comportamento homossexual até a ejaculação, após a fase da puberdade. Se mais de um terço dos americanos manifestaram esse comportamento, não se justificaria mais tê-lo como anormal, seja do ponto de vista sexual, estatístico ou psicológico.
Por outro lado, ficou comprovado por vários estudos de Kinsey que a orientação sexual não é uma condição, mas uma gama de comportamentos e identidades; a homossexualidade é uma das muitas variações normais do comportamento sexual humano.
Os movimentos gays, por sua vez, começaram a desmascarar pressupostos errôneos sobre sua vida, seus sentimentos e ações. Considerando essa reformulação, por volta de 1973, a American Psychiatric Association retirou a homossexualidade da lista de distúrbios mentais. A partir daí, ficou claro que muito do que se considerava patológico e provocado pelo homossexualismo era fruto do estigma social, que não permitia aos gays estabelecerem sua identidade pessoal e social – ou seja, a neurose podia acometê-los tanto quanto aos heterossexuais.
(*) Contatos com Vera Lúcia Franco podem ser feitos pelo e-mail vluciafranco@jarinet.com.br

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