NO TÁLAMO
(Retirada do livro de Bilitis, uma das amantes de Sappho)
ENFIM sós, no interior cheirando a rosas e aromas de um
certo pó capitoso, proveniente do Egito, que ardia na
caçarola de cobre, pousada sobre uma trípode de mármore
verde.
O sol, entrando pelas frestas das janelas, beijava
nossos corpos nus com gula, pintando-os de tonalidades
que iam desde a mancha rubra ao terno sombrio, como faz
nas horas do poente sobre os baixos relevos do portão do
templo de Afrodite.
E coladas uma à outra, como duas Graças, e envolvidas
pela poeira dourada em que se desfaziam as réstias do
sol, saboreamos, por um instante absortas, o hinário
glorioso de nossa carne luminosa.
Mas os desejos chegaram impetuosos, e um beijo profundo
e violento iniciou as sinfonias das perturbadoras
carícias. E nossas mãos inquietas, deslizando pelos
flancos, apertaram as nádegas firmes e arqueadas,
afagaram as coxas de cetim, e subindo através a curva
profunda da cintura, atingiram o pequeno cômoro dos
seios que acariciamos como se acariciam as rolinhas.
Os rosados mamilos sentiram a febre dos lábios sequiosos
que os sugavam com a mesma sofreguidão e delícia com que
se chupam os bagos de uvas de Corinto nas tardes
encalcadas. Ao mesmo tempo os dedos travessos brincavam
à porta do templo, onde moram as Delícias Inenarráveis e
se fabrica o mel do apaixonado Eros .
Nestes quentes brinquedos nós ficamos até que por fim a
névoa da volúpia nos toldou os olhos. Fui então fechar a
janela, enquanto Mnasidka acendia a lâmpada. Logo depois
caímos no leito, coberto de flores, enroscadas,
comprimidas num enlaçamento convulso.
A luz da lâmpada, coada por vidros cor de safira, dava
aos nossos corpos um tom de prata azulada, deixando a
impressão de os vermos sob as águas iluminadas, o que
comunicava às nossas carnes um valor mais fascinante.
E freneticamente, angustiadamente, nos segredávamos num
murmúrio abafado:
- Bilitis, Bilitis. . .
- Mnasidika, Mnasidka. . .
E enquanto Astarteia nos ia levando a conhecer os
sagrados mistérios, Mnasidka, igual a Leda quando
recebeu a visita do Cisne, abriu as pernas ebúrneas,
belas como as da Deusa, e eu, como o apaixonado Cisne,
acolhi-me entre as ancas divinas. E os nossos ventres,
em frêmito, sentiram enfim as doçuras do ansiado
contato.
Mnasidika, tal como se tivesse aprendido as sete
posições eróticas, não ignorava os segredos que levam
aos cúmulos da lascívia.
Assim, enquanto durou o glorioso abraço, desenvolveu
toda a teoria dos movimentos luxuriosos, das carícias
mordentes.
Os quadris ágeis e elásticos rodopiavam em ondulações
curtas, precipitadas e serpentinas; o ventre nervoso,
sob a pressão do meu, latejava em ritmos tumultuosos
como os de bacante em delírio; e enquanto os meus braços
a cingiam voluptuosamente os meus lábios se encontravam
com os seus, as mãos deslizavam sobre minha pele como
asas de pomba e os dedos afunilados tocavam-me toda como
se eu fosse um psalterium ; a boca sôfrega procurava a
minha, o meu pescoço, os meus braços e meus seios
túrgidos. E como neste trabalho as cabeças se agitassem
febris, os cabelos, já soltos, revoltos, acrescentavam
seus flébeis afagos às carícias dos lábios e da língua.
As pernas , flexíveis, nervosas, tocavam-me toda, numa
mobilidade ansiosa, fazendo lembrar as antenas das
abelhas sobre as corolas; e sem prejudicarem a vaga dos
nossos quadris em fogo, arrancavam do meu corpo ofegante volúpias desconhecidas. Igual à terra úmida revolvida,
que exala um cheiro próprio, nossos corpos suados pelos
espasmos da volúpia igualmente evolavam um aroma
perturbador que as narinas dilatadas absorviam, tornando
maior a sofreguidão dos desejos. E na explosão dos
transportes candentes exclamávamos:
- Mnasidika, faz assim, minha terna pomba !
- Bilitis minha esposa, morde-me, morde-me, belisca-me,
deixa em minha pele as nódoas do sagrado Eros.
- Mnasidika, amor divino, geme, geme, doce amada...
- Geme, amor sem par !
- Doce bem.. . Ò sempre eternal. . .
Mnasdka, a insaciável, soerguendo a bacia firme e
redonda, tomou a minha mão direita, acariciou sua anca
de efebo, conduziu-a até o sulco que o gracioso pomo
divide em dois e ensinou-me outros e exóticos prazeres,
enquanto sua segunda mão, fina e leve, me fazia
experimentar a natureza do seu capricho.
Prosseguimos então em reviramento de olhos, tomando os
dela a cor das pérolas translúcidas, e de nossas
gargantas entumecidas em torrente frases de corrosiva luxúria.
- Ai, gozo arrebatador !
Estendidas lado a lado, nossos corpos em trégua eram
iguais a dois desertos, vermelhos de sol, enodoados pelo
oásis do delta. E como examinássemos os ventres ainda
palpitantes, pondo a mão sobre a região das sombras,
Mnasidika informou:
- Estes pêlos com que a Natureza cercou o templo do
Esquecimento, e da qual os bosques sagrados de Astarteia
são a réplica, significam que a Deusa gosta de ocultar
seus prazeres no mistério. Por isso quem se depila,
Bilitis, contraria sua vontade. Essa forma de lança é
também simbólica: quer dizer que no templo do
Esquecimento ninguém entra sem antes ser atingido pela
flecha de Eros.
- E para atrair os mortais, Mnasidika, quis a Natureza
que o templo se umedeça, igual a uma flor, de uma
ambrosia capitosa ao calor das carícias, como os figos
de Delos babam o suco aos raios do sol. Quem uma vez,
minha querida, esmagou a flor entre os lábios para lhe
sugar o mel, entra em delírio de amor como se bebesse
aquele filtro tessaleano que no plenilúnio bebem as
sacerdotisas de Melita em noites de orgia. Minha
carinhosa, porque não haveremos de chupar-nos? Com este
suco no sangue mais honraremos a Deusa.
E longamente, febrilmente, esmagamos nos lábios a flor
viçosa cujo suco nos deu alento para ascender novamente
ao reino do Incomparável .
Era já dia quando descansamos, fazendo as próprias coxas
travesseiros para nossas cabeças esvaídas. . .